"Actualmente, a imagiologia cerebral tenta pôr em evidência, através de inúmeros estudos, a relação existente entre défices cerebrais e o comportamento violento e psicopático. (...) As áreas cerebrais que, através de muita investigação, têm sido associadas aos indivíduos de comportamento anti-social, consistem no córtex pré-frontal, o córtex temporal, o complexo amígdala-hipocampo, o corpo caloso e o giro angular. Phineas Gage sofreu um acidente, do qual saiu com o córtex pré-frontal danificado. Tratava-se de um sujeito agradável, bem parecido, respeitado e organizado, que, no entanto, passou a demonstrar uma conduta desagradável, irresponsável e sexualmente promíscua. Esta lesão cerebral predispôs o sujeito a um comportamento psicopático. (...)
Após a interpretação dos diversos estudos, entendemos que os défices e lesões no córtex pré-frontal permitem explicar a preferência dos psicopatas pelo risco e a desvalorização das consequências subjacentes. Aí, os indivíduos tornam-se bem mais sensíveis aos ganhos e menos às perdas. Esta característica vai contribuir para a impulsividade, quebra de princípios, fraco controlo comportamental, falta de realismo e ausência de objectivos traduzidos no comportamento irresponsável próprio da conduta psicopática. Estes défices têm também como consequência a fraca condicionalidade à base do medo, daí a fraca excitabilidade face aos estímulos negativos. A sua incapacidade de destrinçar emoções neutras, positivas, negativas e consequente ausência de empatia, deve-se, igualmente, a este tipo de défices no córtex pré-frontal.
Os défices ao nível do corpo caloso estão implicados na generalização do afecto negativo, subjacente a um défice na regulação do processo inibitório de resposta pelo hemisfério esquerdo. O corpo caloso, sendo um feixe neuronal central que faz a lateralização cerebral, ao ser danificado, vai deixar de estabelecer a comunicação funcional entre os dois hemisférios e as suas respectivas áreas, Com efeito, uma deficiência na regulação do afecto, vai contribuir para uma expressão comportamental, igualmente, desregulada. Esta traduz-se no comportamento agressivo e violento, falta de aptidão social, incapacidade de estabelecer relações afectivas bem a incapacidade de ter auto-conceito.
As deficiências do córtex parietal e o giro angular, por sua vez, são responsáveis pelas dificuldades na leitura e matemática. Esta disfunção cognitiva tem como consequência a desadaptação a contextos primários educativos bem como a constrangimentos do meio envolvente, predispondo e vulnerabilizando o indivíduo à agressividade, à violência e ao crime. Outras investigações, sobretudo de natureza transversal, sugerem igualmente défices de funcionamento em diferentes formas de comportamento anti-social, isto é, comportamentos delinquentes de tipo violento e persistente e psicopatia. O desempenho destes indivíduos em vários testes neuropsicológicos sugerem uma dificuldade no processamento da informação, dificuldades perante os constrangimentos sociais, pois são incapazes de suspender um padrão de respostas dominante, quando as circunstâncias mudam. "
(...)
É cada vez mais notório a influência biológica na explicação dos comportamentos anti-sociais, de psicopatia e do crime. Devido aos avanços, no que diz respeito à biologia molecular, às técnicas de exploração do cérebro, à identificação de patologias específicas e do desenvolvimento de instrumentos de avaliação e previsão (PCL_R por Robert D` Hare, destinada à fase adulta), é-nos permitido aprofundar e validar essa relação. No entanto, a psicopatia é o resultado de uma interacção entre factores genéticos e variáveis do meio.
A preponderância dos défices neuropsicológicos tem sido notória para o despoletar das consequências negativas inerentes à hiperactividade, temperamento, impulsividade e problemas de atenção que, por si só, podem gerar o comportamento desadaptativo, delinquente e agressivo implícito na psicopatia na ausência de factores de protecção.
O trabalho empírico coloca algumas reservas quanto à localização precisa desses distúrbios neurológicos, pois conceptualiza-se a presença de múltiplas e diferentes áreas cerebrais na interpretação desta conduta. No entanto, este trabalho foi desenvolvido no intuito de demonstrar e sistematizar as relações existentes entre determinadas lesões cerebrais e a sintomatologia psicopática, para uma melhor e mais clara compreensão deste distúrbio da personalidade."
04/12/07, Coimbra
sábado, 1 de março de 2008
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